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Entrei em um prédio residencial no centro da cidade semana passada para uma visita de avaliação. O edifício, erguido em meados dos anos 90, ostenta um hall de entrada revestido em granito impecável e uma marcenaria que atravessou décadas sem um arranhão. No entanto, assim que passei pela portaria, a sensação de desconexão foi imediata. A sala de espera, desenhada para abrigar poltronas de leitura e cinzeiros de cristal, agora servia apenas como um depósito improvisado de caixas de papelão e pacotes de e-commerce empilhados no chão. Não havia um ponto de carga para celular, nenhum espaço minimamente ergonômico para um morador responder a um e-mail urgente enquanto espera o elevador e, muito menos, uma infraestrutura que suportasse a rotina de quem trabalha remotamente.
O colapso da função nos espaços de convivência
O projeto arquitetônico daqueles anos focava em áreas de contemplação. O salão de festas, por exemplo, é um ambiente vasto, com cozinha industrial que nunca foi usada, ocupando uma metragem valiosa que poderia ter sido convertida em um coworking silencioso. O problema é que o condomínio não foi pensado para a multifuncionalidade. Quando um potencial comprador visita um imóvel assim, ele percebe rapidamente que a valorização do metro quadrado está sendo corroída pela falta de utilidade prática das áreas comuns. A estética de luxo antigo já não sustenta o preço se o morador precisa sair de casa para encontrar um lugar com Wi-Fi estável e uma tomada funcional para o notebook.
A obsolescência aqui não é sobre a estrutura física, que muitas vezes é robusta, mas sobre a falta de adaptação ao novo estilo de vida. Edifícios que não oferecem espaços integrados, zonas de descompressão ou, no mínimo, um locker inteligente para recebimento de encomendas, perdem força nas negociações. O custo condominial, muitas vezes alto devido à manutenção de itens obsoletos, acaba pesando contra o valor de venda.
Como o mercado enxerga essa defasagem
Para o investidor imobiliário ou para quem busca o primeiro imóvel, essa “falha” pode ser uma oportunidade. Ao analisar um condomínio, é preciso olhar para além do apartamento. Se o prédio possui áreas comuns subutilizadas, há margem para negociação e, futuramente, para uma valorização estratégica através da modernização. A administração do condomínio que entende essa mudança de comportamento consegue, através de reformas pontuais — como a conversão de um espaço ocioso em área de trabalho ou a instalação de pontos de recarga para dispositivos —, elevar o valor de mercado de todas as unidades ali presentes.
O comprador moderno prioriza a fluidez. Ele quer saber se o prédio é “digitalmente receptivo”. Isso significa que, além da localização e do tamanho da planta, a conveniência tecnológica dentro das paredes do condomínio passou a ser um critério de desempate. Imobiliárias experientes já notam que imóveis em prédios que insistiram em manter a configuração rígida de vinte ou trinta anos atrás demoram mais para girar. O cliente entra, olha para aquele salão de jogos empoeirado ou para a academia com equipamentos que parecem peças de museu, e a conta mental que ele faz é: “quanto vou gastar para compensar essa falta de estrutura na minha rotina?”.
Reverter esse cenário exige uma mudança de mentalidade dos conselhos de moradores. Não se trata apenas de pintar paredes ou trocar o piso das áreas comuns. É uma questão de repensar a utilidade. O espaço que antes era dedicado a algo que ninguém mais usa pode ser o diferencial que coloca o prédio de volta no topo da lista de desejos de quem busca um lugar para morar. A valorização imobiliária, hoje, mora exatamente onde a tecnologia e a convivência se encontram, mesmo em endereços que já viram muitas décadas passarem.